sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Amantes, Two Lovers, James Gray, Joaquim Phoenix, e um tanto de mim...




Não to com cabeça pra escrever algo mais em detalhe do filme "Amantes".

Só digo que ele é muito bem feito. Real. Minha cara. James Gray, Richard Menello e Joaquim Phoenix deuram vida ao personagem Leonard Kraditor de forma que fizeram o personagem com o qual mais me identifiquei no cinema. Mais que Christopher MacCandless ou Half Nelson. Talvez ele não seja tão incomum, mas o minha impressão foi essa. Me vi em 90% do tempo na tela.

domingo, 8 de novembro de 2009

Ambulance Driver




As semelhanças são várias. Não é à toa que estamos falando de Paul Shrader e Martin Scorsese juntos. O roteirista e o diretor de "Taxi Driver" fazem aqui uma jornada parecida com a de Travis Bickle, só desta vez à bordo de uma ambulância com o paramédico Frank Pierce nesse "Bringing Out the Dead"(traduzido genéricamente como "Vivendo no Limite". Nicolas Cage tá naquela sua versão "sou um acabadaço que faz narração em off cansada e foda", excelente. Entre seus "parceiros de crime" temos o Larry(John Goodman, gordinho impagável do "Jurassic Park" e "O Grande Lebowiski") Marcus (Ving Rhames, o Marcellus Wallace do Pulp Fiction) e o maluco beleza neurótico Tom Wolls (Tom Sizemore) e aquela aparente fragilidade da Patricia Arquette como a ex-viciada Mary Burke.

A fotografia do Robert Richardson, ora branca-hiper-realçada ora azulona, já de início dá um ar de que as coisas não são tão comuns nesse filme quanto aparentam. Ou de que pelo menos elas podem piorar. Esse parceiro antigo dos filmes do Oliver Stone(me permitam largar um "blargh!" nesse momento), do Scorcese e do Quentin Tarantino manda muito bem.
Tudo indo em direção à estética da direção de arte de Robert Guerra, outro parceiro mais recente do Scorsese e também de filmes como "O Último dos Moicanos", fez uma escolha por criar paletas de cores para as cenas de maneira bem pontuada. Sabe aquela coisa de perceber que existe uma preocupação suficiente pro espectador notar coisas diferentes e bacanas componda a imagem e nem tão espalhafatosa quanto uma Amelie Poulain? É mais ou menos isso o resultado, lembrando dos filmes do Pedro Almodóvar.

O aspecto fascinante pra mim tanto aqui, quanto no Taxi Driver quanto num dos meus favoritos de todos os tempos, Apocalypse Now, é a crescente jornada passo à passo, ambulância à ambulância para a insanidade. Frank Pierce é atormentado por vidas que ele não salvou e pelo stress crescente do trabalho que nunca termina e do qual ele nem sequer consegue ser demitido. Ver a "scum of the city", os viciados, prostitutas, traficantes, pirados, religiosas, moradores de rua virados em animais todos dias e tratá-los e nunca ver a luz no fim do túnel vai criando o ambiente agoniante de Frank e a atmosfera agonizante de uma metrópole caótica. É um espírito que fica pairando no ar que eu adoro. O melhor de tudo é como o filme vai avançando cada vez mais para cenas cada vez mais surreais, mas de alguma maneira um surreal completamente possível.

Ah, curta com som alto, a trilha sonora pesquisada com muito rock e blues com Rolling Stones, Janis Joplin e The Clash fazem alegria da torcida.

sábado, 7 de novembro de 2009

Pobres cidadãos cumpridores da cartilha...




Jogando logo a merda no ventilador, "Código de Conduta" é um filme bem crítico ao sistema judiciário como um todo. A farça semi-teatral das cortes, as falhas de legislação e as injustiças cometidas por essas brechas.
Ainda que de maneira Hollywood-style, os lugares comuns e clichês são suprimidos pelo desenvolvimento espetacular dos eventos do roteiro, com espaço para várias reviravoltas e momentos "que porra é essa?!". Excelente direção do F. Gary Gray, diretor de "Uma Saída de Mestre" (The Italian Job) e "O Negociador". Entretenimento muito bem feito sem achar que a plateia tem mentalidade que não passa dos 10 anos.

A história de vingança como prato-que-se-come-crú evolui a um patamar mais elevado que o típico. Muitas reviravoltas com todos imãs necessários pra fazer a história andar sem solavancos. Os diálogos muito fodas entre o promotor Nick Rice (Jamie Foxx) e o ex-engenheiro Clyde Shelton (Gerard Butler) são, ora bolas, muito fodas. Uma obra quase impecável do não tão impecável Kurt Wimmer. Roteirista de filmes médios e de moral duvidosa como "Reis das Ruas", "O Novato" e inclusive dirigindo o meio-Matrix-meio-1984-meia-boca "Equilibrium" e o fetiche de ação "Ultravioleta". Aqui vê-se uma maturidade não atinginda anteriormente. O resultado é muito bom.

Os dois dão um banho de sal de interpretação. O Foxx eu continuo cometendo o crime de não te-lo assistido como Ray Charles na cinebiografia do músico. E nem preciso, com "Colateral" ele já ganhou meu coração. O Butler com certeza era machão forçado porém massa tanto no "300" como no "RockN'Rolla". Aqui ele acerta o soco no lugar mais do que certo. Um personagem que parece que será o protagonista, vira o antagonista e na verdade está mais para um anti-herói do que um vilão. Isso que faz o público se conectar com o Clyde Shelton. E pensar que durante a produção do filme Butler e Foxx estavam fazendo o papel um do outro até decidirem trocar de lugar e Foxx ser o Nick e o Butler ser o Clyde.

Um pequeno parênteses sobre os atores e atrizes. Achei muito louvável assistir um filme onde a proporção de atores negros para brancos está num saudável 50/50. Isso é raro, ainda mais num filme com tantos personagens como profissionais do Direito e de alta classe social. Ver uma juíza negra num filme não é algo de se esperar dos americanos racistas. Há gente que vale a pena na terra do Tio Sam.

"Código de Conduta" deixa a pessoa com vontade de atirar umas pedras contra o Palácio da Justiça, por mais que essa rebeldia seja em vão se feita individualmente. Serve pra acalmar os nervos. Assim como esse filme. O público personificando-se no Gerald é uma verdadeira terapia. E que além de crítico e instigador de atos "rebeldes", o filme acaba também cumprindo seu papel social de fazer as pessoas realmente atirarem pedras no Palácio. Na ficção fazemos o mesmo de maneira confortável e segura, sem termos que ser responsáveis pelas consequências de um ato real. Interpretações e consequências desse filme podem ser várias e isso que faz da obra algo relevante.

SPOILER - NÃO LEIA SE NÃO QUISER ESTRAGAR SURPRESAS

O final pode ser conservador/hollywoodiano/conformista, porém não deixa de ser uma reviravolta. Mais importante, ele até é um clichê de protaganista ganhando do antagonista, mas o desenvolvimente do personagem do Gerald Butler é tão bem feito durante todo filme que ficamos com a impressão de que quem venceu foi o "bom que é mal" do personagem de Jamie Foxx. Temos que nos conformar em ser cidadãos cumpridores da lei (law abiding citizens), como no título original do filme. Isso é pelo menos o que o estúdio do filme queria, mas minha impressão final foi outra. Quem ganhou foi a injustiça da qual o filme lidou em grande parte, o mal necessário que faz o sistema funcionar. Algo que vale a pena lutar contra.



"I'm gonna pull the whole thing down. I'm gonna bring the whole fuckin' diseased, corrupt temple down on your head. It's gonna be biblical."

domingo, 1 de novembro de 2009

Espaguete com tiros, dinamite e pimenta




De início esse filme tem um pouco de crise de identidade. Chamado por vários títulos entre eles "Se Abaixa, Desgraçado!(Giù la Testa)", "Um Punhado de Dinamite(A Fistful of Dynamite)", Era Uma Vez...A Revolução (C'Era una Volta...la Rivoluzione) ou, na tradução incrível para o Brasil, "Quando Explode a Vingança". Esse foi o filme do Sergio Leone menos conhecido, considerado como a parte do meio da sua segunda trilogia(que convenhamos, é meio forçação de barra) do "Era Uma Vez...". Se o primeiro da trilogia, "Era Uma Vez no Oeste", era sobre o fim do Velho Oeste selvagem e o último, "Era Uma Vez na América", é sobre o crime organizado já no século XX, Era Uma Vez...a Revolução se passa em 1913 no México, durante a tal revolução.

Além de possíveis interpretações políticas, Sergio Leone disse ter feito o filme mais sobre amizade e companheirismo entre pessoas bem diferente entre si do que sobre a Revolução Mexicana em si. E isso não diminui o filme, deixa os acontecimentos a uma distância segura para o espectador ter suas conclusões. E a contextualização é bem boa, sem criar duas frontes homogêneas contrárias e idealizadas.
A falta de idealismo é uma das características desses Spaghetti Westerns, com personagens que não estão lutando por uma causa linda e bela no papel e na ficção. Muitas vezes os personagens inclusive não tem moral nenhuma e estão atrás é de diheiro(como diz o nome da primeira trilogia de Leone).

Nesse filme, Leone é bem irônico quanto à fidelidade à causas políticas. Se de início Juan Miranda pareçe um líder de um pelotão revolucionário e John Mallory um irlandês alienado atrás de prata, os papéis dão um 360º.

SPOILER À FRENTE (NÃO LEIA A DIANTE SE NÃO QUISER ESTRAGAR SURPRESA)

Mallory é um ex-membro do IRA, enquanto Juan não passa de um bandido pé de chinelo que fez de sua família uma quadrilha e aproveita a confusão da revolução para assaltar os ricos estrangeiros e locais. É essa diferença de personalidade que faz a parceria inusitada de ambos ser interessante. A questão da amizade de ambos vai sendo explorada e a troca de experiências entre ambos chega ao ápice na cena em que Mallory está lendo um livro do Mikhail Bukanin em sua barraca e Juan sugere que ambos dêem no pé antes que se enrosquem ainda mais na revolução que não é de nenhum deles. Mallory pergunta se Juan não se sente mal em largar a luta revolucionária. Juan então mostra que sem nem sequer saber ler, tem uma teoria muito melhor que qualquer intelectual revolucionário:
"As pessoas que leem vão até o povo pobre que não sabe ler e falam "temos que mudar as coisas". Então as pessoas pobres fazem a revolução. E depois as pessoas que leem sentam envolta das mesas polidas e falam, falam, falam e comem, comem, comem. Mas o que aconteceu com as pessoas pobres? Eles morreram. Isso é a revolução. E sabe o que acontece depois? A porra todo acontece de novo!"
Mallory entende o companheiro e em seguida joga fora o livro.

FIM DO SPOILER

O filme tem um contexto histórico interessante, discussão política, ação, drama e aquele toque de comédia macarrônica meio trashs típica dos italianos. Tudo em doses muito bacanas num roteiro muito bem bolado e personagens estilosos. Vale a pena conferir esse filme mais obscuro do Sergio Leone.

A bullit in the stomach




Primeiro filme a ter um personagem falando "bullshit!"
É, Bullit tem muitos momentos de soco no estômago ou pelo menos frio na barriga. O realismo da famosa perseguição de carro é tudo que falam mesmo. Steve McQueen quase nem usou dublê. E as cenas são fodas mesmo. Como era bom quando não existia CGI pra fazer cenas de ação.

Pulando a parte da ação, Bullit é um baita filme policial. Trama intrincada e inteligente. Steve McQueen está muito bem sendo um policial frio e duro feito bife de 5ª categoria, mas verdadeiro destaque de atuação tem que ser para o Robert Vaughn. O político oportunista que ele faz é perfeito. Consegue deixar o espectador irritado com ele na sua 2ª cena.

Destaque final para a música do Lalo Schifrin. Esse argentino já tocou piano com o Piazzola e fez nada mais nada menos que um dos temas mais famosos da história, o do Missão Impossível. No Bullit ele conseguiu fazer o que Ennio Morricone tentou e não conseguiu n'Os Intocáveis: música composta como se fosse uma banda de jazz tocando. Percussão de bateria estilo drum n' brass, saxofone, flauta, baixo acústico. Tudo funciona muito perfeitamente e dando um estilo bem único, ainda mais para a época. Do caralho! E o melhor é que o Lalo soube não exagerar na própria ideia. Quando o diretor Peter Yates pediu para ele musicar a perseguição de carro, Lalo disse que não precisava. O resultado são 9 minutos de uma perseguição "silenciosa", somente com os efeitos sonoros crus e sem firulas musicais. O efeito é impressionante, impactando muito mais os espectadores.


Walter Chalmers: "Qual é. Não seja ingênuo, tenente. Nó dois sabemos como carreiras são feitas. Integridade é algo que se vende ao público...

Bullit: "Venda o que quiser, mas não aqui essa noite."

Chalmers: "Frank, nós todos temos que nos comprometer."

Bullitt: "Bullshit!"

sábado, 31 de outubro de 2009

Alçando vôo






Épico. Filme de ação. Artes Marciais. O que tudo isso têm em comum? Não se encaixam de jeito nenhum nos estilos de cinema feitos no Brasil. Isso, é claro, até o aparecimento de "Besouro".

Besouro é um filme que se passa nos anos 20 no Recôncavo Bahiano. O cadomblé era oprimido e a capoeira proibida. Mesmo depois de 40 anos sem escravidão, os negros continuavam a ser igualmente tratados como escravos. Esse é o contexto do filme. Ufa, ainda bem, tem discussão de problemas sociais. É ainda um legítimo filme brasileiro. O resto dos ingredientes pra esse acarajé fílmico é que deixam o prato interessante.

Alguém já imaginou ter um filme de capoeira coreografado por um mestre chinês de artes marciais? Então, tá aqui o que você queria! O nome desse onorável oriental é Huan-Chiu Ku. Nada mais nada menos que dublê de Jet Li e coreógrafo de lutas de filmes como Kill Bill e O Tigre e o Dragão. No mínimo foda. E é mesmo. Ver um filme nacional com esse estilo e toda essa perfeição na categoria é maravilhoso.

Passado essa colaboração inusitada, vamos aos outros aspectos do filme. Direção de João Daniel Tikhomiroff. Who the fuck is João Daniel Tikhomiroff?! Esse cara não é um novato. Ele dirigiu filme antes. Em 72! E era isso. Como ele veio à tona depois de tanto tempo, não faço a mínima ideia. O que se sabe é que ele não ganhou 48 Leões em Cannes por premiações publicitárias.
Caralho, o cara é demais. Planos e cenas absolutamente lindos e muito perfeitos. E ter uma mentalidade voltada para rodar um filme de ação num país considerado sem verba pra esse tipo de "luxo" é uma vitória ainda maior.

A reconstituição de época é muito convincente. Direção de arte do Cláudio Amaral Peixoto. Esse é mais conhecido que o diretor. Esteve em produções como "Última Parada - 174", "Meu Nome Não É Johnny", "Guerra de Canudos" e "Cazuza - O Tempo Não Para."
A fotografia é tão linda e perfeita como a direção. Obra do também internacional Enrique Chediak. Equatoriano em processo de radicamento para o Brasil, Enrique faz um baita esforço pra ter uma fotografia estilosa e nem perceptivelmente exagerada.

Na trilha sonora consta Gilberto Gil e Nação Zumbi. E toda música instrumental é muito boa.

Ah, a preparação de elenco é da Fátima Toledo, famosa por Pixote - A Lei do Mais Fraco, Cidade Baixa, Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite. Aliás, quase ninguém tinha noção do que era uma preparação de elenco até o surgimento da Fátima no cinema brasileiro.

O roteiro segue uma linha com alguns clichês, mas recobre o filme com momentos suficientemente bons e significativos para fazer a história valer a pena. O filme trata da cultura negra, da exploração do homem pelo homem, da perseguição religiosa e de costumes. Muito mais do que filme "social" ou filme onde o embate é só na base da porrada, há momentos esperituais bastante inesperados. A pessoa sai do cinema com alguma divindade do candomblé na cabeça.

Acho que o filme é muito bom. Artísticamente e monetariamente. Não só isso, também tenho fé de que ele vai ser um momento histórico. Todo dinheiro da Petrobrás, Siderúrgica Nacional e da Odebrecht(o filme é quase um produção lulista) valeram a pena. Uma ruptura de gêneros, de alguns paradigmas e ransos dos rolos já quase envelhecidos do chamado "cinema nacional".



"Um besouro é pesado. Não foi feito pra voar. E ainda assim voa."

domingo, 25 de outubro de 2009

Monstruosidades coreanas



Mistureba boa de filme de monstro, denúncia política, drama, suspense e até um tanto de comédia. É assim "O Hospedeiro", de Bong Joon-ho. Nesse aqui, as treta são coreana.

Um mostro criado à partir de lixo tóxico ataca uma cidade coreana. Uma família é dividida e posto em quarentena. Hmmm, parece que já vimos esse filme, né? Só com um lagarto gigante destruindo Tóquio, não?
Uma grande diferença desse filme para um Godzilla que é todo tosqueira japa ou blockbusterianismo da sua versão hollywood é que a atmosfera do filme nunca cruza a linha de virar um filme catástrofe aventura. O foco é na vida de algumas pessoas que não tem suporte do governo para ir atrás de um possível sobrevivente. O exército está nas ruas caçando a criatura, mas também atrapalhando a busca. ninguém do serviõ médico acredita que esse sobrevivente realmente ligou para o celular de uma das pessoas na quarentena. Ao invés disso, o homem que recebeu a chamada é tratado como temporariamente insano. Há uma crítica forte à influência americana na Coréia. Seja no laboratório causador, seja na política de intervenção para controlar a quarentena.
Nesse filme tem drama de verdade meu amigo, não é um passeio na garupa de um monte de efeitos especiais ou maquetes sendo destruídas. A trama em que os personagens se enredam é complicada e agoniante na medida certa. Atuações muito boas deram expressão pra família protagonista. E os efeitos estão lá sim. Aliás, muito perfeitos.

Enfim, essa mistura toda é que faz o filme ser bem feito e ter originalidade mesmo com uma premissa conhecida. Tem todos quesitos técnicos e artísticos bem afiados e não à toa foi sucesso recorde de bilheteria na Coréia do Sul. O cinema coreano é digno de se dar atenção, até porque deve haver um motivo para ser um dos poucos países que consomem mais filme locais que estrangeiros. Num país que não tem mais território que o Paraná. Foda...