domingo, 3 de outubro de 2010

Filme cult brasileiro? Chama o Selton!




Uma ótima tentativa de se fazer um filme cult brasileiro. Novamente, o Selton Mello tinha que se envolver. O argumento (genial) é muito Charlie Kaufman – emprego de pelo menos um elemento surreal de tão estranho e criativo num universo do cotidiano. E depois ele tem uma reviravolta completamente inesperada, mas bem construída, tornando-se um popcult-b-trash tarantinesco.

De ruim só alguns maneirismos, gestos, falas de uns personagens que não precisavam forçar tanto a barra. Gimmick é bom, mas pode ficar muito exagerado e perder o carisma. Talvez é porque ele seja muito raro no cinema nacional, mas enfim, às vezes fica estranho. Outras vezes são muito afudês e engraçados.

Da minha parte, acho que a estória poderia ter focado ainda mais no liquidificador. Há algumas cenas que nos são mostradas que não são vistas nem por Elvira nem pelo Liquidificador e essas passagens nem contam muita coisa. Mesmo o filme tendo “só” uns 80mins, ele ainda assim poderia ser menor se cortassem essas cenas e não perderia em envolvimento e estória.

A música também remete ao tom levemente engraçado e num primeiro momento calmo dos filmes com o roteiro do Charlie Kaufman (esqueçam o “Sinédoque, Nova York”, esse é bem chato e desnecessariamente tristonho). Também remete um pouco às músicas de comerciais das antigas de produtos para donas de casa, tipo como o The Sims também faz. A música tema, em que o destaque é um assovio, é hit.

Por fim, o somatória do todo perde um pouco em relação à genialidade de algumas partes, mas isso não quer dizer que é um filme ruim. Longe disso, só faltou ainda um leve polimento. No total é um filme ótimo e completamente cativante e criativo. Assistam antes que seja tarde.

O nome do jogo




Dos 4 filmes que assisti até agora no feriadão, "Nome Próprio" é o melhor de todos. O mais redondinho em todos os aspectos. Estória é muito boa, mesmo com uma protagonista que é uma mina azedinha mais pra mimada do que qualquer outra coisa e em crise com a vida em geral. Estória boa mesmo com a prosa da protagonista, que expia sua vida, sentimentos e etcs num blog, ser às vezes bem óbvia e fraca, às vezes boa. Uma estória baseada nesses escritos. Tudo para se torcer o nariz certo? É, mas as bebedeiras, nóias e trepadas da guria renderam um puta roteiro. E a fotografia, direção, montagem, música e atuações fecham completamente.



Nem tô por falar muito do filme. Só digo pra assistirem com toda a certeza. Foi o que eu peguei mais por acaso na locadora e conseguiu ganhar de um filme do Copolla, um com o Al Pacino e o mais recente do Giuseppe Tornatore. Quer mais ou tá bom? Só se for uma Leandra Leal numa atuação muito muito muito foda, melhor que um Gene Hackman e um Pacino, acredite.

Um lar utópico de interesse e ridicularização

Entre o interessante e o totalmente ridículo. Acho que é a melhor definição que dou para esse “Nosso Lar”, a mais nova incursão no mais novo sub-gênero do cinema nacional: o “espírita movie”.

Depois que deu retorno, a Globo curtiu muito essa parada de espiritismo. Atacaram no cinema com Chico Xavier, nas novelas com Escrito nas Estrelas e nas séries com A Cura. É com certeza um baita segmento de público: no mínimo há 2 milhões de adeptos do Kardecismo espírita no Brasil. Supondo que todos curtam TV ou cinema e tenham dinheiro e tempo de usufruir dessas artes e entretenimentos, são 2 milhões de espectadores garantidos. E mais os curiosos, como foi o caso de mim e da minha mãe nessa tarde chuvosa.

“Ok, deve ser pura merda em conteúdo, mas vamo lá matá a curiosidade.” Pensei comigo. E saio da sala de cinema com aquela impressão do início do texto. Assisti um filme que técnicamente faz juz aos R$20 milhões empregados nele (tirou o “Lula- Filho do Brasil” do título de mais caro filme nacional). E sua estória e conteúdo são interessantes, até envolventes, e no fim voltamos à realidade com os últimos dizeres do filme, que te lembram que ele é “baseado em fatos reais”. Aí nos damos conta que não estávamos vendo um filme fantasioso do Peter Jacksson ou um livro viajado de ficção. Tem 2 milhões de pessoas que supostamente vão sair do cinema acreditando piamente no que acabaram de ver mas que se tivessem saído de A Origem certamente falariam:

- Que filme mais maluco esse, né?


Pois amigos, por mais improvável que sejam os acontecimentos d’A Origem, ele sabe que é ficção e é muito mais verossímel que uma colônia de ectoplasma que fica pairando invísivel sobre a Terra. Ééééé, seu Chico e seus amigos que escreviam os livros junto com ele (e deixaram os créditos só à ele) fumavam muito bagulho ou eram realmente criativos. Isso não dá pra se jogar fora, a estória é uma viagem de muita criatividade.


Nos aspectos técnicos temos uma pós produção de efeitos digitais gringos, feitos pela galera do Watchmen, que conseguiram a façanha de criar uma Brasília futurista, ainda com os traços do Nyemaier. Alguns, porém, são lamentáveis. Parece que deixaram pra Globo fazer. A música também do gringo Philip Glass (Show de Truman, As Horas, O Ilusionista) mantém o espírito (sem ironias). Destaque especial para a montagem, com transições fantásticas e criativamente executadas entre os diversos mundos e épocas.
A produção é média. Se a direção do brazuca Wagner de Assis e a fotografia de Ueli Steiger (também gringo, fotografia de “O Dia Depois de Amanhã”) são muitos boas, a reconstituição histórica com figurinos e cenários bem convincentes, as atuações atrapalham muito na imersão. Alguns são constangedores de tão amadores. O protagonista, feito por Renato Prieto, é um ator famoso no círculo espírita por atuar em várias peças espíritas. E é isso que ele deveria seguir fazendo. É notável que ele nunca tinha atuado com uma câmera na frente. Todo seu estilo, linguajar, pronúncia, tudo é do teatro. Os personagens em geral também seguem um nível parecido. Só os globais conseguem ser mais decentes. E um amigo meu dizendo que o Werner Schünemann era ruim...


A pré-produção é aquilo... Se os roteiristas mudassem muito o livro, a Federação Espírita poderia tirar o patrocínio. Então ficou aquele linguajar antigo para as partes de época (até ok) e diálogos de padre no mundo espiritual. Realmente irritante. Nenhum espírito sabe falar de forma coloquial?
No conteúdo, é uma estória de redenção (como nenhuma religião podia deixar de ser) de um médico que viveu em excessos (nunca se vê os tais excessos, mas dá-se a entender que ele bebia afú pela sua morte com dores no fígado ou sei lá o que. Ah claro, como médico, ele era ateu. Heresia!!!) e classificam sua morte como suícidio inconsciente. Depois de passar por uma lavagem de alma, ele vai se inteirando de como funciona o pós-morte, os ministérios e gabinetes do mundo espiritual, como conseguir créditos para poder mandar mensagens aos familiares vivos e passa por uma jornada de melhoramento da sua personalidade. Enfim, salvação.
A grande questão dessa tal cidade espírita é que ela é uma verdadeira Utopia. Tudo que você fez de ruim na vida terá de ser vivido na pele para a pessoa se arrepender. E ao chegar na colônia espírita, tudo que a pessoa faz de bom é recomensado na medida certa e tudo que ela faz de errado é punido na medida certa. Essa é a melhor definição de utopia. Na vida real não é bem assim. Pra que fazer o “bem” se não é certo que vão lhe aplaudir por isso? Por que não passar a perna em alguém, já que é fácil sair impune? Essa utopia pós-morte, esse karma, o medo de sofrer as consequências pelos nossos atos é a base de funcionamente de boa parte das grandes religiões do mundo.


Particularmente eu não gosto de nenhuma crença religiosa. Gostaria muito de viver em um mundo em que as pessoas fossem racionais e evoluídas o suficiente para superarem tudo isso, mas essa é a minha utopia. É pedir demais. As crenças religiosas tanto produzem preceitos éticos que só são respeitados quando postos na posição de “palavra divina” como também formam uma orda de fanáticos descerebrados. Sem religião essa irracionalidade e fanatismo não se expressaria de outra forma? Provavelmente, até porque o futebol tá aí pra provar isso. Mas gosto de pensar que ainda assim seria um mundo melhor.


No fim, fico meio assim de quantas criançinhas estão sendo envenenadas com essas lavagens cerebrais ou se isso vale como lição de moral, mas pro cinema nacional é excelente. Começa assim, com coisas que vão ter retorno certo. Um dia vamos ter esse dinheiro pra gastar com uma ficção científica de verdade.
Agora gostaria de assistir de novo A Origem pra me desintoxicar. Boa-noite, vivos!

Porta de entrada para a Sicília

Muitas vezes me surpreendo com a capacidade de filmes conseguirem exprimir em 2hrs ou mais uma vida inteira de um personagem. No caso de "Bàaria - A Porta do Vento" esse personagem é o siciliano Peppino Torrenuova . Ou melhor, será que o personagem não é a própria Sicília? Ou é boa parte da História da Itália do século XX? Talvez todos juntos, somados às memórias do próprio diretor e roteirista Giuseppe Tornatore (de “Cinema Paradiso”), é que formam o protagonista e a “aura invisível” desse belo filme.


Dá pra vermos boa parte da história Sicília e em geral da Itália, mesmo que um retrato pitoresco e até talvez “pra inglês ver” feito de colagens de diversos elementos, desde o início dos mafiosos, dos fascistas, passando pela liberação americana na 2ª Guerra, a democracia com os emergentes movimentos de esquerda, até algumas cenas das cidades atuais. Todos acontecimentos são permeados por inúmeros personagens, cada um com elementos que os tornam únicos e os identificam mais facilmente entre eles (gimmicks e kitsch pululam proeminentemente). O protagonista é primeiramente um garoto pobre, que é “alugado” pelos pais para trabalhar junto com um pastor de cabras, busca o amor de Sarina, filia-se ao partido comunista e tenta até se eleger deputado, enquanto vai criando um filho atrás de outro.


O filme infelizmente apresenta problemas consideráveis. Há excesso de informação e personagens. No início há cortes de um plano para o outro num estilo videoclipe desnecessário. O corte entre as cenas às vezes não funcionam, principalmente por elas retratarem estorinhas paralelas diversas. E na parte de efeitos na pós-produção, o pouco que há de efeitos digitais são feios e nem eram necessários.
O pior de todo o filme é sua sequência final, que pra mim foi muito menos compreensível que o final do 2001. E foi algo sem muito propósito. Enfim, não entendi até agora. Nem o que significa, nem o porquê de ele ter sido feito. Poderia ter sido uma morte típica (eu adoraria ter visto uma morte do protagonista sentadinho em uma cadeira, à lá The Godfather III) que teria funcionado e fechado bem melhor.


Dito tudo isso, sigo recomendando muito o filme. Não é só interessante culturalmente e historicamente, os seus inúmeros personagens são muito carismáticos. Aqueles italianos exageradamente dramáticos, explosivos e/ou debochados que muitas vezes permeiam o filmografia italiana está retratada em todos seus aspectos. Seja num filme do Benini, que consegue criar situações de graça e ternura um campo de concentração nazista. Ou num do Fellini, com elementos fantasiosos que mostram excentricidades ao mesmo tempo que tem seus personagens sofridos e cheios de crises existenciais. Até o “menos italiano” Sergio Leone, que tanto retratou o Velho Oeste americano, transparecem essas mesmas idiossincrasias em seus personagens (principalmente no Tuco do “O Bom, O Mal e O Feio”). Não posso falar do Tornatore, pois esse foi o 1º filme dele que eu assisti, mas ele aglomera todas essas características muito amáveis e interessantes. Conseguem envolver muito bem o espectador, nos dramas, na política, no humor e no próprio cinema da época, retratado com especial atenção por Tornatore, provavelmente tirado de suas memórias quando garoto.


É bom, bonito, enriquecedor e entretido, mesmo com algumas falhas. Recomendo.

Menos conversa e mais ação, por favor

Todo mundo tem alguma decepção cinematográfica. A minha foi em relação ao Francis Ford Copolla, cineasta e autor de alguns dos meus filmes favoritos, como The Godfather e Apocalypse Now. Aluguei "A Conversação" com expectativas altas. É da época de ouro do Copolla e de toda cambada sexo-drogas-rockn’roll da Nova Hollywood. Palma de Ouro em Cannes. E ae? Bom, não é tudo isso...

Bom, a primeira cena manteve minha alta espectativa satisfeita. Uma câmera mostrando uma praça. Uma conversação entre duas pessoas. Um zoom lento e vagoroso, te deixando agoniado pra entender quem está falando. Mas tudo vai se perdendo. E rapidamente. Rapidez, aliás, é o que falta nesse filme. Acho que ele tem estória para 1hrs de filme, só que de algum jeito encheram linguiça para ele ter quase 2hrs.
O que parece um suspense à primeira pista se perde pra mostrar demais a vida do tímido protagonista, bem interpretado pelo Gene Hackman. E essa corda bamba fica pendendo demais ora para um lado, ora para o outro. Falta foco. E assim se perde o interesse.

O fôlega da primeira cena só se recupera lá pelo final, em que o filme (finalmente!) volta ao suspense, que era o que interessava, e cria cenas verdadeiramente tensas, com acontecimentos bem resolvidas e reviravoltas muito boas. Até a cena final, quase tão surreal quanto Apocalypse Now, que fica até estranha em comparação com o resto do filme, ele fica legal. Mas é isso, o melhor do filme fica pra música do David Shire (Todos Homens do Presidente, Zodíaco) com piano, jazz e ecos de Psicose. Foi mal Copolla, mas não deu não.

sábado, 14 de agosto de 2010

A origem e o lugar onde ocorrem os conflitos humanos



















Deixem-me ser bem pedante e americanóide nesse momento. Estou completamente em cloud nine! Christopher Nolan did it again! Blowed my mind! Ainda estou incrédulo de como um filme como Iception sequer existe. Muito incrédulo. De todos os aspectos possíveis. Cenas sem gravidade, ok. Cenas de ação sem gravidade, ok também. Mas jamais, jamais imaginaria que alguém fosse criar e executar cenas de ação em que a gravidade do cenário muda de uma parede à outra. E nunca com essa competência. Jamais imaginei um filme com cenários tão bem estruturados, rompendo leis da física ou não. Cenários com um fundo de parede japa com uma ilustração e detalhe lindos. Jamais pensei em um filme com tanta atenção à absolutamente tudo. Direção de arte, fotografia, atuações, direção, montagem, música, roteiro. Enfim, acho que não mereçe nada menos que número um de todos os tempos na minha lista pessoal.

Me precipito? Talvez, até porque quero assistir o filme mais uma meia dúzia de vezes antes de sair do cinema. Ano passado foi duas vezes que o Tarantino me convenceu a ver Inglourious Basterds. Curiosamente, ambos filme tem títulos com palavras sem tradução. Destino? É Deus jogando seus dados? Não sei, só uma coincidência curiosa mesmo.

Um fim de semana depois, após assistir mais uma vez o filme, posso afirmar com certeza que Inception é o Matrix dessa era. Não o filme do ano, mas o dessa década. E um dos melhores filmes de todos os tempos. Avatar vai sofrer o mesmo desgaste que Titanic. Chamativo e revolucionário, mas falta muita liga. E na minha lista de filmes favoritos, por enquanto não vejo nenhum que supere Inception, somente uns poucos que estão à altura. O grande truque é que depois de eu chegar a essa constatação, estou muito empolgado pra assistir todos meus filmes favoritos de novo. Aí sim, poderei dar um veredicto final.

Agora vamos a um fato: Dark Knight, filme anterior do diretor/roteirista Christopher Nolan já foi uma das maiores bilheterias da história do cinema. E diga-se que uma das poucas com uma inteligência aliada à técnica (Stars Wars, Titanic... not so clever). Dark Knight foi um marco cultural. É o que está posicionado como 1º lugar no raking feito pelos usuários do IMDB. Boa parte dessas pessoas estavam ávidas pra ver o próximo filme do Nolan. E depois de Inception, o que essas pessoas viram? Cenas que causam um espanto que não se via desde Matrix, provavelmente. Roteiro tão confuso, deliciosamente viajante e complexo quanto Memento ou The Prestige, os filmes anteriores com o diretor e roteirista Christopher Nolan. Ou seja, Nolan juntou todas suas máximas em um só filme. Digo que ele é um dos melhores cineastas de renome dessa última década. E digo que essa é, até agora, sua magnus-opus.

Em termos de sensações, foi algo muito maior do que um 3-D de um Avatar da vida. Nunca perdi o fôlego como perdi assistindo esse filme. Nunca fiz pizzas no sovaco tão fedorentas. Nunca fiquei com as mãos tremendo no fim. Nunca deixei de sentir as pontas dos dedos. Nunca senti as artérias do meu estômago pulsando. Sim, to longe de ser alguém normal, mas essas coisas nunca tinham acontecido com esse cinéfilo aqui.

Um cineasta-mestre assim não vem do nada. Foram anos elaborando o roteiro. Escrito, até onde se sabe, completamente por Nolan. Quando o negócio começou a ficar complexo demais para ele arriscar fazê-lo, sabiamente Nolan aceitou projetos com maior certeza comercial e a mesma grandeza técnica, onde poderia se aprimorar. Daí já surgiram os baluartes como Batman Begins e Dark Knight.

Vamos ao roteiro e o conteúdo, que no fim, é o que interesse nos grandes filmes. Elogiar as cores bacanas da fotografia e da direção de arte é algo que eu adoro, mas é em grande parte um grande blefe. Podem construir obras únicas e serem lembrados por isso, mas não existe filme bom sem roteiro bom. Se contentar com “mas o contraste do vermelho e com o verde naquela cena” depois de um filme com estória mediana é o fim da picada pós-moderna. No fim, é com um bom roteiro que começa todo bom filme, na minha visão geral a respeito do audiovisual.

Seguindo, o roteiro. Ainda não acredito que foi feito. A complexidade não está em uma montagem em vários “andares”, com cronologia quebrada, etc. Não é o editor brincando com a ordem do filme. Respeitando quase o tempo todo a cronologia de acontecimentos, o filme consegue surpreender na sua complexidade. Pode até causar confusão, mas é como em The Prestige (outro filme do Christopher Nolan). A confusão é bem-vinda. Faz parte do show. Não chegamos a nos perder a ponto de ficarmos irritados por isso. Na verdade, deixar se perder é a base de toda a questão. E talvez essa seja toda a base do que eu chamo de “filmes pós-modernos”. A percepção do que é a realidade ou não está tão presente na mentalidade contemporânea que isso se reflete nos grandes filmes dessa era. Seja no Clube da Luta, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Quero Ser John Malkovich, Matrix, Fonte da Vida, Vanilla Sky, Lost... Todos nos deixam um pouco “lost”, sejam nas temáticas, no suspense não resolvido e em aberto, quebrando-se cronologias ou usando da metalinguagem.

Talvez Apocalypse Now e 2001 sejam os únicos filmes clássicos (muito) anteriores a todos esses que tenha criado tal “aura”. Antes deles, a grande “aura” do cinema foi mostrar mocinhos que não eram tão mocinhos e bandidos que não eram tão bandidos. A ambiguidade substituindo o dualismo maniqueísta que reinou até o meado dos anos 60 foi a marca da modernidade no cinema. A marca da pós-modernidade, portanto, é uma expansão daquela percepção. O preto e branco se misturou de tal forma que o pós-modernismo no cinema questiona se sequer estamos vendo cores ou não. O que é o deserto do real?

Vamos falar do que podem ser os dois únicos aspectos negativos do filme. Nº 1, ele chega a ser megalomaníaco demais. Mesmo com os poucos alívios cômicos (que eu particularmente achei forçadinhos), eu respirei muito pouco durante o filme. Tudo a toda hora é incrivel e surpreendente, chegando a quase exaustão. Há também muita informação pra acompanhar. Pelo menos, peca pelo excesso.
Nº 2, pode exister uma ideologia “maligna” por trás de tanta complexidade e profundida da história. Digo pode, porque essa é a percepção que eu tive da primeira vez que assisti o filme. E outras pessoas me relataram o mesmo. Na verdade, o problema está justamente nessa megalomania do filme. Com tanta coisa que acontece, nosso cérebro joga pra escanteio as reais motivações pra tudo que acontece na trama.

Todo o trabalho homérico do protagonista e seus comparsas é em função de um empresário japonês que quer que o herdeiro de uma mega-empresa energética dissolva seu império em empresas menores, de forma a acabar com um possível monopólio. Lendo aqui parece muito claro. Mas na montanha russa de emoções num crescendo imparável do filme, dá pra entender que o empresário japa quer destruir a mega-empresa do outro pra criar o seu próprio monopólio.
Sabe o que é mais lindo e sombrio? É que mesmo entendendo errado da primeira vez, o filme te convence completamente a compactuar com seja lá o que o empresário quer no fim das contas. O foco é na empatia com o protagonista e com o desenrolar fantástico de eventos da estória, como todo o bom filme deve fazer. É tudo tão foda que aceitamos.

Mais curioso e sutil é o “Welcome to the United States” perto do final no aeroporto (que acabou não sendo nada sutil graças a ideia de alguém de legendar essa placa que está lá em cima na tela, não tem muita importância e nem é muito percebida). Aí já estamos indo longe demais, mas é um elemento básico de boa parte das estórias, o “volta para casa”, que é tirado da Odisséia grega.

No fim, de que trata o filme? É uma volta ao estado original das coisas, consertar o que está errado ou foi destruído ao longo da estória. O protagonista volta pra casa e pra seus filhos. Sua mulher não volta porque obviamente não iriam trazer ela dos mortos nesse tipo de filme. Mas como é que se retorna ao estado original das coisas, então? Superando o trauma da morte. O protagonista se perdoa de sua parcela de culpa por tudo que pode ter causado direta e indiretamente a morte de sua amada. Essa é a volta à origem. E o artifício do filme é materializar esse conflito criativamente com as representações dos subconscientes dos personagens e usar bem todas artimanhas dos blockbusters, que invariavelmente chamam a atenção do público e fazem ele ser visto de verdade e não ser um linda obra completamente esquecida. Quando Cobb está com Mal no limbo, ou melhor, com a projeção que ele criou de Mal no seu subconsciente, e fala que ela é só uma sombra do que foi sua mulher real e que ele tem que deixá-la, isso é a representação física do ser humano superando os traumas da sua mente, seu apego ao passado, ficando finalmente mais zen.




Fico agora com aquela tristeza de quando acabamos um bom livro. Sempre podemos lê-lo de novo, mas nunca vai ser a mesma coisa. Ou melhor, nunca vai ser tão bom. Pode com certeza aderir mais (e no meu caso aderiu mesmo), mas nunca vai ser aquela torrente de espanto como da primeira vez. Não sei quando Nolan vai conseguir igualar algum futuro trabalho sequer nesse mesmo nível, pois superá-lo já me parece quase impossível. O próximo Batman com certeza vai me emocionar muito, mas é por ser uma continuação. Mesmo que seja uma bela merda, vou aplaudí-lo e defendê-lo pela ligação emocional com a série de filmes. Mas essa ligação nunca foi feita a respeito da minha infância, lendo os quadrinhos, me fantasiando de Batman no Halloween, etc. Eu nunca gostei de Batman. Torci o nariz pra querer ver o Batman Begins. É um mestre como o Christopher Nolan que consegue fazer as coisas diferentes. Destruir todos os preconceitos que eu tinha. Só ele conseguiu provar que todas pessoas são tão imorais quanto o Coringa.

A Humanidade é trágica e imoral, andando aos tropeços em um teatro de ilusões. Ilusões da memória, ilusões e grandes truques, ilusões e teatralidades quirópteras, ilusões do subconsciente, dos sonhos e da realidade. Essa pra mim é a ideia que permeia toda a obra de Christopher Nolan. E é nessa ilusão que o próprio cinema se encaixa, nos fazendo viajar e se fascinar. Nolan nos vende essa ilusão audiovisual, uma mentira que adoramos. E adoramos as características dos seus personagens, sejam bons ou ruins. Tudo conforme os planos de um sujeito sorridente que nos dá percepções e ideias que se implantam nas nossas mentes, conscientemente ou inconscientemente, como um vírus. Um meme se multiplicando como uma cadeia de DNA num palco de uma odisséia pós-moderna.

sábado, 7 de agosto de 2010

Incepção cultural






Calma calma, pessoal. Ainda não vou falar de Inception - A Origem. Não vou falar porque até agora nem cheguei a assistir. É um pecado, mas amanhã dou bola pra essa provável obra-prima. Tudo a seu tempo.

Vamos voltar um pouco ao passado. Mais especificamente, 1967. Ano da psicodelia, pensariam vocês? É, até tem aver. Tropicalismo? Com certeza. Mas o foco em especial é ainda outro. É o Festival de Música Popular Brasileira, realizado na época pela Record. Se trata do documentário musical "Uma Noite em 67".

Esse é mais um numa leva de docs brazucas que resgatam nosso passado musical. Nesse aqui tem Gil, Caetano, Roberto Carlos, Chico, Edu Lobo, MPB4 e um pouco de Mutantes. O apanhado histórico do filme, e a qualidade com que conseguiram resgatar imagens e o áudio me deixaram embasbacado. Dá pra ouvir um "filho da puta" de alguém da plateia do festival.

Falando na parte histórica, o filme conta o que eram os festivais de música da época, o papel de juventude que florescia e desses músicos já citados e hoje eternizados na cultura mundial. Tudo intercalado com depoimentos atuais dos sobreviventes e as execuções das músicas ao vivo com imagens de arquivo. Dá pra se ter uma bela noção do momento histórico da época, assim como também desmistifica certas percepções idealistas que viraram lenda popular e assumidos como tendo acontecido.

Acima de tudo, os depoimentos são de se mijar de rir. Com o passar do tempo, alguns elementos de cada um dos músicos podem ter ficado no imaginário popular (e meu) como meras simplificações das pessoas reais, mas o pior é que tudo tem um fundo de verdade. O Gil, particularmente, é pura viagem e enrolação ao mesmo tempo.

É muito importante pra memória e entretenimento pacas. E isso vindo de um pirralho de 19 anos que não tem a mínima noção do que foi ter vivido naquela época e que dedica pouquíssimo espaço à música brasileira no seu HD. Vale muito!