terça-feira, 20 de julho de 2010

A 8ª maravilha do mundo


Vamos começar pela premissa do filme, que é nisso que ele é forte. Um grupo de pessoas de diversos países, cansados de verem injustiças no mundo e se sentindo pouco representados pelos seus representantes decidem formar uma espécie de país virtual. Qualquer pessoa de qualquer lugar pode ganhar a nacionalidade desse país, desde que respeite sua constituição, que foi feita à la wikipedia, com cada membro ajudando um tanto e sugerindo leis. Além disso, à cada nova semana é votado um referendo com uma ação real atrelada a uma causa que o país acha interessante defender. Ações como protestar contra a pena de morte em uma passeata irônica que pede pela morte do peru de dia de ação de graças que recebe o perdão presidencial nos EUA. Ou espalhar mensagens estilo "Jesus breve voltará" por todo o Vaticano, acompanhadas de camisinhas. O nome de país é 8th Wonderland.


A medida que as ações ganham publicidade espontânea na grande mídia, o grupo começa a ter discussões internas sobre o quanto eles querem se expor, correndo riscos de serem descobertos pelas autoridades. E as discussões progressivamente aumentam na proporção que as ações ficam mais complexas, perigosas e polêmicas. Chega-se ao ponto de que uma ação aprovada pelo 8th Wonderland é moralmente contraditória às ações passadas. Dessa forma, o filme discute a formação de um grupo político e suas implicações em direção ao radicalismo e aos membros contrários as mudanças do grupo.

Todos os diálogos dos membros do 8th Wonderlanda ocorrem numa espécie de videoconferência. O filme dá destaque para um certo grupo específico, composto por americanos, britânicos, um casal italiano, uma garota afegã, um senegalense, um francês, um latino (não lembro se o cara era do Uruguai ou não) e alguns outros. Nessas "assembléias" todos falam inglês de forma a se entenderem mais facilmente. Quando o filme mostra a vida pessoal de cada um, os personagens falam sua língua local, elemento que eu elogio bastante.

Nessas passagens a imagem deles aparece em uma tela, de frente para as telas do outros, em forma de círculo e um sala branca de fundo infinito. A câmera vai passeando de uma tela até outra à medida que os diálogos se desenvolvem. O recurso é funcional, mas como o filme se baseia muito em diálogos, pode cansar um tanto.

O filme é intercalado de vários telejornais de vários países, que discutem o que é o grupo, as suas ações, defendem ou desvirtuam, dão destaque ou não. Assim como nas histórias pessoais de cada membro da 8th Wonderland, os telejornais respeitam o estilo e linjguagem locais. Seguem-se discussões sobre o papel dos meios de comunicação e as suas agendas. Afinal, de que adianta uma ação que ganha destaque num dia e no outro o interessa da mídia e do seu público muda para qual o nome do cachorro do Obama?

Todas ações do grupo são bem interessantes e poem à mostra as muitas influências da globalização na vida contemporânea. Se as multinacionais são muitas vezes inescrupulosas, os mesmos meios de comunicação e transporte que possibilitam sua existência também fez possível a criação da 8th Wonderland.

O filme segue uma linha de suspense político, com uns toque de humor, às vezes bons às vezes na forma de um alívio cômico barato. A produção do filme enfatiza uma certa simplicidade, que chega ao nível do explicitamente tosco em certos momentos. Ser completamente sério e bem feito não era o foco, e provavelmente estava além do orçamento do filme, então a decisão por ter passagens visivelmente simples ou mal feitas fica até mais apropriado. O problema é quando isso começa a minar o roteiro. Algo parecido com "Um Dia Sem Mexicanos", só que esse pode pode ser tosco porque ele se propôs a ser mais escrachado.

As cenas toscas começam a se refletir numa certa ingenuidade da história no geral. As ações são por deveras complicadas e dão certo demais (falir uma multinacional com uma campanha de conscientização e com sabotagem, por exemplo), os membros da 8th Wonderland se veem seguros na internet porque um deles é um agente da CIA (duvido muito que a Agência contrataria alguém com alguma dúvida de lealdade, fora um espião que não teria interesse em trabalhar com idealistas) e sobretudo o happy ending nem um pouco convincente.

Dá pra perdoar os exageros porque pelo menos as propostas e discussões do filme são bem interessantes, mas faltou um pouco mais de polimento. Assistam sem muito medo:

http://www.youtube.com/watch?v=kbiHOii4Ag0

Um comentário:

  1. Eu seria um pouco mais dura, talvez. Mas valeu a crítica. O que me encomoda mais é mesmo a questão da ingenuidade, das ações complexas habilmente e rapidamente executadas, que levam o filme para uma ilustração das idéias e não tanto um desenvolvimento reflexivo mais profundo, da mesma forma que os diálogos também são pouco explorados, né?!

    Abs. Joana.

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